Levantamento mostra problemas sérios entre os fornecedores das três maiores redes de varejo do país
Grandes redes de supermercados de todo o país podem estar vendendo em suas lojas carne produzida em áreas de desmatamento e com trabalho análogo à escravidão. É o que mostra levantamento realizado pela organização Engajamundo, com dados de Do Pasto ao Prato, aplicativo que identifica a origem da carne disponível no mercado e três indicadores de risco: impacto ambiental, trabalho forçado e multas de inspeção sanitária.
O levantamento, obtido com exclusividade por O Joio e O Trigo, mostra que foram encontrados 22 pontos de venda de 21 supermercados onde há trabalho escravo na cadeia direta em todo o Brasil.
O grupo Carrefour é um deles. O supermercado comprou carne de sete frigoríficos envolvidos em trabalho escravo, sendo quatro deles situados no Rio Grande do Norte, um em Pernambuco e dois em São Paulo. Hoje, o Carrefour é a maior rede varejista de alimentos do Brasil.
Nos casos de São Paulo e Rio Grande do Norte, um dos frigoríficos que vendeu para o grupo foi a gigante do setor, a JBS, que, entre 2015 e 2023, comprou gado de um fornecedor que integra a ”lista suja” de empregadores autuadas por casos de trabalho análogo à escravidão. Outro grande frigorífico, o MasterBoi, forneceu carne para o Carrefour do Rio Grande do Norte. Entre 2015 e 2023, o MasterBoi comprou gado de um fornecedor que integra a “lista suja”.
A campanha idealizada pela organização Engajamundo foi batizada de “No rastro da carne”. “Escolhemos esse nome pois estaríamos escaneando as carnes para saber a procedência e o impacto no meio ambiente”, conta a maranhense Aline Maria do Carmo Pinheiro, uma das coordenadoras de biodiversidade da organização e que atuou na campanha. “Como cidadãos temos direito de saber qual tipo de carne estamos comendo, de onde ela vem.”
Durante o período da campanha, a organização fez ações de rua em São Paulo e em São Luís, e participou da COP 16, em Cali, na Colômbia, onde apresentou a iniciativa e trocou relatos com pessoas de outros países sobre experiências de problemáticas socioambientais ligadas à cadeia da carne.
Todas regiões do país
As coletas foram feitas em todas as regiões do país, em 55 redes de supermercados, entre 15 de agosto e 15 de outubro de 2024. No total, foram feitas 2.098 leituras no aplicativo, sendo 967 para bovinos. A existência de trabalho escravo é definida a partir do cruzamento entre a Guia de Trânsito do Animal, a GTA diretos e indiretos de frigoríficos, e o Cadastro Ambiental Rural (CAR). A GTA é um documento que tem informações sobre os animais, como origem e destino e condições sanitárias.
A pesquisa mostrou que a carne vendida em uma das lojas do Grupo Pão de Açúcar no Rio de Janeiro também veio de frigorífico da JBS, e que entre 2016 e 2023 a JBS comprou gado de um fornecedor incluído na “lista suja”.
Tanto o Carrefour quanto o Grupo Pão de Açúcar são signatários do Pacto pela erradicação do trabalho escravo no Brasil, acordo que prevê restrições comerciais a empresas e pessoas identificadas na cadeia produtiva que adotam práticas que caracterizam escravidão. O pacto é coordenado pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Repórter Brasil.
No Nordeste
O Grupo Mateus, que atua no Nordeste e recentemente conquistou a terceira posição entre as redes varejistas de todo o país em termos de faturamento, também foi identificado no levantamento. Uma das lojas da rede, no Maranhão, vendeu carne do frigorífico Frigoestela, que entre 2015 e 2023 comprou gado de um fornecedor que integrava a “lista suja”.
Durante a coleta de informações, ainda foram encontradas em mercados do supermercado Mateus, em São Luís, mais de 140 bandejas de carne sem identificação. De acordo com as regras sanitárias de XXXX, as carnes precisam ser identificadas com dados do frigorífico de origem e do supermercado.
Outro grupo que atua no Nordeste, o Nordestão, estava vendendo, no Rio Grande do Norte, carne fornecida por quatro fábricas da JBS que compraram de fazendas onde houve ocorrência de cinco casos de trabalho análogo à escravidão.
No rastro da carne
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Desmatamento
No levantamento também foram identificados supermercados que compram carne de frigoríficos que obtém gado de municípios com alta exposição ao desmatamento. No Grupo Alvorada e no Supermercados Mundial, ambos no Rio de Janeiro, foram identificados dez fornecedores nessa condição; o Grupo Mateus, no Maranhão, com oito fornecedores, e o Grupo Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, com cinco fornecedores, vêm em seguida.
De acordo com Dari Santos, coordenadora de impacto do Pasto ao Prato, há cada vez mais usuários interessados em saber a origem da carne que consomem. “Como somos uma iniciativa de dados abertos, nosso papel é garantir acesso a todos que queiram trabalhar para garantir uma cadeia mais sustentável”, afirma.





