
Em 2015, Dilma Rousseff assinava um decreto que, visto no futuro, pode ser um atestado de óbito. O documento criava o Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba. Caberia ao comitê gestor, também aberto pelo decreto, estabelecer quais municípios de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia seriam considerados parte do Matopiba, o que foi feito em novembro daquele ano: 337 cidades ao todo.
Aquele não era um decreto qualquer. Era o reconhecimento, pelo Estado, de um plano de exploração da região que começou durante a ditadura civil-militar (1965-1985). Muitos anos mais tarde, passou a pipocar na boca de líderes do agronegócio: aquela era “a última fronteira agrícola”. Quem também assina o decreto é nada menos que Kátia Abreu, amiga de Dilma e então ministra da Agricultura. Figura política de relevo no Tocantins, ela foi o centro de uma estratégia de atração de recursos públicos e privados para uma região que se tornou sinônimo de riqueza para poucos e problemas para muitos – para aqueles que sempre estiveram ali.
Em 2023, estivemos em Correntina, no Oeste da Bahia, para investigar o processo de grilagem de comunidades tradicionais, que tiveram áreas tomadas e cercadas por fazendeiros que sequer sabem quem são. Os moradores desses territórios são frequentemente alvo de ameaças e pistolagem, impulsionadas pelo avanço do agronegócio na região.
Aquelas famílias produziam uma enorme riqueza: eram autossuficientes em alimentos e em vários itens básicos, preservavam a mata e as nascentes. Mas estavam não apenas abandonadas: estavam sob ataque.
De volta à redação do Joio, além de publicar reportagens sobre o assunto, refletimos sobre a necessidade de fazer mais investigações sobre o processo de desmatamento, grilagem e despossessão de terras na região. E então, quase dois anos depois, damos início a uma nova etapa de cobertura sobre o Matopiba.
É importante localizar, para você, onde estará nossa cobertura: dentro da editoria de Colapso Climático, onde residem nossas investigações sobre agronegócio. É uma escolha política: como repórteres, olhando os dados e rodando pelo interior do país, jamais pudemos acreditar na ilusão de que o agro alimenta o mundo, nem de que possa haver um convívio pacífico entre latifundiários, camponeses e integrantes de povos e comunidades tradicionais.
Nesta série, faremos reportagens de campo e investigações aprofundadas sobre os processos de invasão, grilagem, desmatamento e expulsão e violências contra povos e comunidades tradicionais dos quatro estados: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Esse material fará parte do selo “A última fronteira”.
